Uma chaga aberta

Só a elucidação do caso Marielle amenizará o sofrimento dos familiares e desarmará os inimigos da democracia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2022 | 03h00

Ontem, completaram-se quatro anos dos assassinatos de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Dois acusados de serem os executores do duplo homicídio, o policial militar (PM) reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz, estão presos há três anos, ainda sem data para julgamento, mas até hoje não se sabe quem mandou matar a vereadora carioca nem por quê. Enquanto não for conhecida a motivação para o assassinato de uma parlamentar em pleno exercício do mandato e os responsáveis pelo crime, mandante(s) e executores, não forem punidos com o rigor da lei, a morte de Marielle permanecerá como uma chaga aberta na democracia representativa brasileira.

A apuração do caso que chocou o País exigia – como ainda exige – extrema prudência das autoridades de segurança pública por envolver uma parlamentar, o que dá azo para a exploração de sua morte com objetivos políticos. À época, apenas horas após o crime, o PT publicou uma sórdida nota vinculando o assassinato de Marielle à situação penal de Lula da Silva, então já um corrupto condenado pela Justiça, unindo ambos como vítimas de “um cerco em meio à escalada do autoritarismo no País”.

A necessidade de agir com prudência, no entanto, não justifica a lentidão da Polícia Civil do Rio de Janeiro para esclarecer a identidade do mandante do crime, bem como sua motivação. Não se pode condenar quem veja toda essa demora – afinal, já são quatro anos de investigações – como resultado de pressões de qualquer natureza sobre aqueles que têm o dever funcional de elucidar o duplo homicídio. A solução desse caso o quanto antes beneficia as próprias autoridades de segurança pública, na medida em que elimina especulações sobre a condução das investigações.

Mesmo em meio à dor causada pela tragédia, a família da vereadora e seus amigos e correligionários não esmoreceram na busca pelo encerramento do caso. Se, por um lado, a apuração parece ter parado no tempo, por outro, os avanços conseguidos até aqui podem ser creditados, em boa medida, à pressão da sociedade civil – e não apenas na capital fluminense, mas em todo o País – sobre as autoridades policiais e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ).

Policiais e promotores de Justiça agora colhem novos depoimentos e apostam em novas tecnologias de investigação que permitiriam um exame mais detalhado dos celulares apreendidos ao longo do inquérito. “Temos revisitado todo o material produzido ao longo da investigação”, afirmou Bruno Gangoni, coordenador do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/RJ). “As provas dessa investigação são muito digitais. Os softwares hoje têm capacidade tecnológica muito maior do que na época em que os aparelhos foram apreendidos. Todos estão sendo reavaliados na tentativa de conseguirmos encontrar novas mensagens”, disse Gangoni ao Estadão.

Espera-se que esse novo esforço investigativo dê resultado. Só a elucidação completa do crime amenizará o sofrimento dos familiares e desarmará os oportunistas políticos e inimigos da democracia.

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