Uma inflação de incertezas

Alta de preços surpreende e Copom aponta muita insegurança no quadro externo e no cenário político nacional

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 03h00

Incerteza, cautela e surpresa diante de um choque inflacionário pior que o esperado marcam a política de juros do Banco Central (BC) e devem justificar, nos próximos meses, um maior arrocho do crédito, com mais entraves ao consumo, ao crescimento econômico e à criação de empregos. A palavra incerteza aparece oito vezes na ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Nessa reunião a taxa básica de juros foi elevada pela décima vez consecutiva, no atual ciclo de aperto, e passou de 11,75% para 12,75%. Mais uma alta, de magnitude inferior a um ponto, está praticamente prometida para junho. Nada garante a interrupção dos aumentos, a partir daí, e no mercado já se preveem, até o fim do ano, taxas no intervalo de 13,50% a 14%.

O quadro é nebuloso e inseguro dentro e fora do País, segundo avaliação do Copom, formado por diretores do BC. O ambiente global tem sido marcado pelo aumento das cotações de alimentos e de combustíveis e pelos esforços, muito custosos, de reorganização das cadeias de produção e de suprimento. Depois da pandemia, a economia mundial foi afetada pela invasão da Ucrânia e pela política chinesa, com medidas de isolamento, de combate a uma nova onda de covid-19. “Esses desenvolvimentos", de acordo com o comitê, “podem ter consequências de longo prazo” e resultar em pressões inflacionárias de maior duração.

Internamente, a ata destaca uma inflação disseminada, mais intensa e mais persistente do que haviam previsto as autoridades monetárias. Choques recentes, assinala o texto, produziram forte aumento nos itens ligados a alimentos e combustíveis. As expectativas do mercado, prossegue o texto, apontam inflação em 2022 e 2023 em torno de 7,9% e 4,1%, bem acima das metas. No âmbito doméstico, a incerteza quanto ao “futuro do arcabouço fiscal”, isto é, quanto à saúde das finanças públicas, já afeta os “prêmios de risco” nos mercados e aumenta a insegurança quanto à evolução dos preços.

Ponto importante: a incerteza sobre o “arcabouço fiscal” já está parcialmente incorporada nos preços, enfatiza o Copom. Em outras palavras, parte do estrago está feita. A incerteza é algo mais grave que uma fonte de risco. O “aperto monetário apropriado”, adverte o Copom, depende do “arcabouço fiscal vigente”: uma piora do quadro pode tornar necessários juros mais altos.

Como sempre, o comitê aponta o perigo de políticas irresponsáveis sem mencionar os seus possíveis autores. Uma lista séria deveria indicar, no mínimo, o presidente da República, o ministro da Economia, o chefe do Gabinete Civil (autorizado a comandar a gastança) e alguns dos principais nomes do Centrão. Todas essas figuras têm participação relevante na devastação das contas públicas e no comprometimento da segurança fiscal. Em ano de eleições, a irresponsabilidade tende a se manifestar ainda mais amplamente. Mas a lista poderia conter, preventivamente, nomes de candidatos notoriamente avessos ao manejo responsável do dinheiro público. Um sinal de alerta pode ser sempre útil.

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