Uma nova guerra fria

As democracias liberais não podem ignorar o regime autoritário de Pequim

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2020 | 03h00

A guerra fria entre EUA e China esquentará muito antes de esfriar – se esfriar. A decisão do governo americano de fechar o consulado chinês no Texas – medida que recebeu represália idêntica da parte de Pequim –, sob a alegação de que hackers chineses estariam espionando pesquisas sobre o coronavírus, não deixa dúvidas a este respeito.

A alusão à “guerra fria”, a bem da verdade, deve ser empregada com a devida cautela. Diferentemente da rivalidade na era soviética, EUA e China operam sem grandes coalizões num mundo multipolarizado. Por outro lado, o antagonismo é igualmente sistêmico, abrangendo questões que vão do comércio, tecnologia e ameaças militares na Ásia, até agressões a minorias étnicas e religiosas ou à autonomia de Hong Kong e Taiwan. As proporções econômicas da China, por sua vez, não têm comparação com a União Soviética. O país responde por 18% da capitalização do mercado global, 13% das exportações e poderá se tornar a maior economia do mundo.

As manifestações das autoridades norte-americanas mostram que a escalada das tensões é sem precedentes e pode se degenerar rapidamente em uma espiral de hostilidades. “Os EUA devem tomar uma ação decisiva para contra-atacar”, disse em audiência no Senado o vice-secretário de Estado Stephen Biegun. O diretor do FBI, Christopher Wray, declarou que a cada 10 horas os EUA abrem um novo inquérito de contraespionagem contra a China. Segundo ele, o roubo de propriedade intelectual por chineses é “tão massivo que representa uma das maiores transferências de riqueza na história humana”. O valor é estimado entre US$ 225 bilhões e US$ 600 bilhões por ano.

“A ambição definitiva dos dirigentes chineses não é comercializar com os EUA. É atacar os EUA”, disparou o procurador-geral William Barr. “Se você é um líder americano nos negócios, apaziguar (a China) pode lhe trazer ganhos de curto prazo. Mas, no fim, o objetivo (da China) é substituí-lo.”

Em viagem à Europa, o secretário de Estado Mike Pompeo pressionou os aliados a contra-atacar as ambições geoestratégicas de Pequim. O Reino Unido já abortou negociações com a gigante tecnológica chinesa Huawei e outros países, como a Alemanha, podem segui-lo. Em Londres, Pompeo se reuniu com parlamentares do governo e da oposição preocupados com a opressão a milhões de muçulmanos uigures na província chinesa de Xinjiang. Enquanto as mulheres uigures são submetidas a um programa de esterilizações e abortos forçados, mais de 2 milhões de uigures já foram presos em campos de concentração, eufemisticamente chamados pelo Partido Comunista de “centros de treinamento vocacional”.

Washington adotou uma atitude decididamente mais agressiva nesta questão. O presidente Donald Trump sempre relutou em aplicar sanções aos abusos humanitários chineses para não prejudicar suas negociações comerciais. Mas, sob pressão bipartidária do Congresso, a Casa Branca aplicou sanções a diversos membros do governo chinês e empresas envolvidas na agressão aos uigures. O embargo americano à Huawei e seus fornecedores também está sendo expandido a outras empresas chinesas.

Desenvolver políticas multilaterais para lidar com a China é uma tarefa difícil, mas inevitável. Há quem considere que uma nova arquitetura comercial adaptada ao capitalismo de Estado chinês seria prioritária para evitar a anarquia econômica mundial. Regras de escrutínio para cadeias de produção sensíveis às estratégias nacionais de segurança, como a tecnológica, assim como protocolos que garantam um grau de transparência e independência em relação ao regime de Xi Jinping das subsidiárias chinesas no exterior, poderiam criar um ambiente comercial e financeiro minimamente estável.

As democracias liberais não podem mudar o regime autoritário de Pequim, mas também não podem ignorá-lo. Além do comércio, há margem para uma cooperação realista em interesses globais como mudanças climáticas ou saúde. Mas essas mesmas potências também precisam ser intransigentes contra as agressões a direitos fundamentais, como as praticadas contra os honcongueses ou uigures. No passado, a comunidade global já falhou terrivelmente em impedir catástrofes como os genocídios praticados contra judeus e armênios. Reincidir neste fracasso seria inadmissível.

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