Uma retomada sem plano

A bolsa sobe e as projeções melhoram, enquanto a cautela segura o consumidor

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 03h00

A maioria dos brasileiros cortou gastos por causa da pandemia, tem medo do desemprego e pretende continuar economizando, segundo pesquisa patrocinada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os mais entusiasmados com o retorno às compras dificilmente lotarão as lojas, se a sondagem se confirmar. Depois do isolamento, 21% dos consultados pretendem aumentar as despesas com roupas, 63% planejam manter e 16%, diminuir. Quando a pergunta se refere a outros tipos de comércio, a intenção de comprar mais é sempre indicada por menos de 21% dos entrevistados. A cautela dos consumidores poderá afetar o ritmo de recuperação dos negócios. De toda forma, as projeções do mercado estão ficando menos negativas.

A retomada é mais veloz nas planilhas do governo. O Produto Interno Bruto (PIB) deve diminuir 4,70% neste ano e aumentar 3,20% em 2021. O Ministério da Economia reafirmou esses números na semana passada. São os mesmos apresentados em junho. Na segunda quinzena de março, quando se reconheceu a presença do coronavírus, ainda se estimou uma expansão de 0,02% em 2020.

Os economistas do mercado ainda mostram menor otimismo, mas continuam melhorando suas estimativas. O PIB deve diminuir 5,95% neste ano, segundo a mediana das projeções da pesquisa Focus. Os dados são recolhidos por meio de consultas a cerca de cem instituições financeiras e consultorias. Quatro semanas antes ainda se estimava uma contração de 6,50%.

Melhorou também a projeção do mercado para a indústria. A produção industrial deve diminuir 7,86% neste ano, segundo a última estimativa. Na semana anterior a previsão era de recuo de 9%. Mesmo com a intensificação dos negócios, a recuperação do setor será trabalhosa e provavelmente demorada, porque a deterioração já era sensível no governo da presidente Dilma Rousseff.

O atual governo jamais se mostrou preocupado com a desindustrialização do País. Quando se manifesta sobre problemas empresariais, o ministro da Economia geralmente se limita a falar sobre os custos trabalhistas e previdenciários, como se fossem, de longe, os principais entraves ao desenvolvimento do setor privado. Discussões sérias sobre renovação industrial, ganhos de produtividade, inovação de processos e de produtos e aumento de competitividade internacional são muito raras – de fato, quase inexistentes em mais de um ano e meio do atual mandato.

A pandemia forçou a equipe econômica a se aproximar um pouco mais da realidade econômica do dia a dia. Como ocorreu em dezenas de outros países, de todos os níveis de desenvolvimento, medidas fiscais e monetárias foram implantadas para impedir ou limitar a quebradeira de empresas e para favorecer a sobrevivência das famílias economicamente mais frágeis. As falhas ocorreram sem surpresa. 

Problemas na execução de algumas políticas, como as de auxílio emergencial aos trabalhadores e de extensão do crédito às pequenas empresas, mostraram de novo a distância entre a equipe de governo e a prosaica realidade do dia a dia. 

Além dos critérios bancários muito conservadores, entraves burocráticos dificultaram a difusão dos empréstimos. Ao mesmo tempo, a distribuição da ajuda teria sido mais eficiente se o governo tivesse maior conhecimento dos grupos mais pobres e menos assistidos. 

Parte do otimismo do mercado é explicável pelo desempenho da bolsa de valores. Esse desempenho pode estar parcialmente associado à reação da economia, mas também reflete o enorme volume de dinheiro num cenário de juros baixos. Além disso, as cotações têm sido influenciadas por notícias positivas da economia americana. 

Para um planejamento seguro da retomada será prudente levar em conta um punhado de ressalvas. A melhora da bolsa resulta apenas em parte da reativação econômica, a indústria continua com baixo potencial de crescimento e os consumidores se mostram cautelosos. Não se pode ainda dizer se um novo consumidor surgiu com a crise. Convém observá-lo. O pior pode ter passado e a economia se move, mas a retomada efetiva é algo para ser construído.

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