Uma safra e dois mercados

Exportação será farta, mas oferta interna pode continuar apertada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 03h00

Mais uma grande safra de dólares deve ser colhida no próximo ano, com novo recorde na colheita de grãos – 268,7 milhões de toneladas, segundo a primeira estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura. O volume previsto é 4,2% maior que o da temporada 2019-2020. O aumento deve ser liderado pela cultura da soja, com produção esperada de 133,7 milhões de toneladas, 7,1% superior à deste ano. As exportações do complexo soja – grãos, farelo e óleo – poderão render US$ 36,56 bilhões, 6% mais que o estimado para 2020, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Para o consumidor brasileiro as perspectivas são menos brilhantes. Haverá arroz e feijão suficientes, se as previsões estiverem corretas, mas o quadro é menos tranquilizante. A oferta de arroz, o mais notório vilão dos preços em 2020, deve ser “ajustada ao consumo previsto”, segundo nota da Conab. “Ajustada” é quase um eufemismo. Mas a produção é só parte do problema. Dólar alto contamina custos e preços internos e a moeda americana deve continuar valorizada, preveem os técnicos da Agricultura. Tanto pior, poderiam acrescentar, se as confusões do Executivo continuarem alimentando a insegurança no mercado financeiro.

A área destinada ao arroz poderá aumentar 1,6%, mas a safra será 2,7% menor que a deste ano, se ocorrer a perda de produtividade inicialmente estimada pelos técnicos. A colheita, nesse caso, ficará em 10,9 milhões de toneladas, pouco mais que suficiente para um consumo estimado em 10,8 milhões. Com importação de 1,1 milhão de toneladas e nenhuma exportação, pouco sobrará depois de abastecido o mercado interno.

“Não haverá uma forte reversão de preços, se as projeções de oferta e demanda estiverem corretas, adiantam os técnicos em seu relatório. Nesse caso, os produtores continuarão encontrando alta remuneração no mercado brasileiro e será desnecessário buscar maior rentabilidade com a exportação. Mas o plantio, lembram os autores do documento, só estará concluído em dezembro e até lá as perspectivas poderão mudar.

Quando ninguém mais podia desconhecer a disparada dos preços, o governo desonerou as importações para reforçar o abastecimento. O efeito, como se antecipou, foi quase nulo. A oferta era apertada também no mercado internacional, por causa das perdas de safras em importantes países produtores.

Na mesma ocasião, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, falou sobre melhores condições de oferta no começo do ano, com a colheita da nova safra. Essa previsão parece agora menos segura, mas o jogo só estará definido no fim do ano. Os ministros da Economia e da Agricultura deveriam olhar as estimativas de safra, levar em conta o risco de novos problemas de suprimento e pensar em como proteger os consumidores.

Também haverá pouca folga no mercado de feijão, se as atuais projeções estiverem certas. Calcula-se a produção total de 3,1 milhões de toneladas, somados os três plantios da temporada. A demanda é estimada em 3,3 milhões de toneladas. A oferta poderá atingir 3,5 milhões de toneladas, com o estoque inicial e alguma importação. Mas, como o feijão é cultura de ciclo curto, poderá haver algum ajuste para cima no segundo e no terceiro plantios.

O cenário externo é mais luminoso. O Brasil deve ser novamente o maior produtor de soja. A produção de milho, com três colheitas anuais, está estimada em 105,2 milhões de toneladas, e deve ser a segunda mais volumosa. Também esse produto gera muitos dólares.

O mercado chinês será novamente o maior importador do agronegócio brasileiro. Mas há outros mercados importantes e um dos principais é a União Europeia. É essencial preservar esses parceiros, mas a política ambiental do presidente Jair Bolsonaro tem fornecido argumentos ao protecionismo europeu. Afrouxando a defesa da Amazônia e do Pantanal, o Executivo brasileiro favorece, também, os opositores do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, cada dia mais atuantes e ruidosos.

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