Uma voz a ser escutada

Liberdade é assumir responsabilidades, disse a chanceler alemã, Angela Merkel

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 03h00

Com o aumento de pessoas com covid-19 – atingiu-se recentemente novo recorde de novos casos por dia –, a Alemanha decretou nova quarentena parcial. “Precisamos agir agora”, disse a chanceler Angela Merkel, ao anunciar a medida no dia 29. Caso se mantenha o atual ritmo de contaminações no país, o sistema de saúde pode “atingir o limite de sua capacidade dentro de semanas”, afirmou.

A princípio, a nova quarentena tem um mês de duração. Foi decretado o fechamento de restaurantes, bares, academias, teatros, cinemas e piscinas. Escolas e lojas poderão funcionar, desde que respeitadas as regras de distanciamento social e higiene. Reuniões privadas poderão ter até dez pessoas, provenientes de duas residências diferentes, no máximo. Shows e eventos similares também foram proibidos, e os eventos esportivos profissionais não poderão ter a presença de espectadores.

É interessante notar que, mesmo com a esfera estadual dispondo de ampla autonomia na Alemanha, o governo central foi capaz de desenvolver uma estratégia comum de atuação com os 16 governadores, o que incluiu também um plano conjunto de comunicação com a população. Além das proibições propriamente ditas, há uma série de recomendações, como a de evitar viagens particulares que não sejam essenciais. Estadias em hotéis estarão restritas a viagens de negócios que forem indispensáveis.

Ainda que o lockdown parcial tenha recebido apoio expressivo da população alemã, houve diversas críticas contra as novas medidas. Angela Merkel foi particularmente criticada pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD). “Em nome da saúde dos cidadãos, (o governo) optou pelas maiores restrições à liberdade da história desta República”, disse Alexander Gauland, presidente honorário do partido.

Em seu discurso no Parlamento, a chanceler alemã reconheceu o caráter exigente das medidas anunciadas diante da nova onda de contaminações. No entanto, afirmou que as restrições impostas são “adequadas, necessárias e proporcionais”. Por sua vez, Angela Merkel chamou de perigosos e irresponsáveis os líderes populistas que minimizam os riscos do novo coronavírus, como se fosse algo inofensivo.

“Mentiras e desinformação, teorias da conspiração e ódio prejudicam não apenas o debate democrático, mas também a luta contra o vírus”, disse Angela Merkel, lembrando que as atuais condições climáticas colocam o país em uma situação mais vulnerável. “Estamos em uma situação dramática no início da época de frio. Isso afetará a todos nós, sem exceção”, afirmou.

Aos que utilizam a liberdade como argumento para se opor às medidas restritivas, Angela Merkel lembrou uma realidade fundamental de toda a convivência social. “Liberdade não é ser capaz de fazer o que você quiser”, disse. “Liberdade é assumir responsabilidades.” Além de defender o isolamento social como a medida mais eficiente para conter a disseminação do vírus, Angela Merkel mencionou a importância, especialmente neste momento, da transparência e da solidariedade.

Horas após o pronunciamento de Angela Merkel no Parlamento alemão, o presidente Jair Bolsonaro mostrou-se surpreso com as novas restrições adotadas por países europeus. Além da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália também anunciaram medidas restritivas de circulação. “Olha, eu não consigo entender uma medida como essa (quarentena) porque tá aí o vírus (sic). Vai ter que enfrentá-lo. Tá de máscara, tudo bem, mas daqui a pouco nada disso vai tá livre dele (do vírus)”, disse Jair Bolsonaro a um grupo de apoiadores no Palácio do Planalto. “O objetivo do isolamento social, que tá errado, eu falei que tava errado desde aquele momento, serviu só para bagunçar a economia, e era para fazer com que não houvesse muita contaminação ao mesmo tempo, para não saturar hospital.” 

Desde o início do ano, o coronavírus vem causando muitas mortes e incontáveis danos. É o mesmo vírus no mundo inteiro, mas a resposta de cada governo é muito diferente. Vale escutar, uma vez mais, as palavras da chanceler. Liberdade é assumir responsabilidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.