Uma voz de liderança

Principal ponto do discurso de Biden foi o resgate da esperança de seus governados

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 03h00

Na semana passada, os norte-americanos voltaram a ouvir a voz de um líder que, genuinamente, reúne os atributos inerentes à condição, a começar pelo entendimento dos desafios que se apresentam para a nação e pela consciência de que governa para todos, e não apenas para os que o elegeram. Assim Joe Biden se dirigiu ao Congresso dos Estados Unidos pela primeira vez como presidente, reforçando o apelo por união nacional e pela defesa da democracia, que foi a tônica de sua campanha eleitoral.

Um ponto que merece especial destaque no discurso de Biden, que marcou os primeiros cem dias de seu governo, é o resgate da esperança de seus concidadãos. Poucas habilidades são mais necessárias em um governante do que a capacidade de despertar uma visão promissora do futuro em seus governados.

Uma pesquisa feita pela rede de televisão CBS revelou que 85% dos espectadores classificaram como “positivo” o primeiro pronunciamento do presidente ao Congresso, ante apenas 15% que o classificaram como “negativo”. Outro levantamento, este feito pelo Pew Research Center, mostrou que 59% dos norte-americanos aprovam os primeiros cem dias de governo Biden. O democrata só está atrás, segundo o mesmo instituto, de Ronald Reagan (67%) e Barack Obama (61%).

Aliada à confiança no trabalho do governante, a esperança de dias melhores no seio da sociedade norte-americana é o elemento central para o sucesso de todas as arrojadas políticas públicas que Biden pretende implementar, com o apoio do Poder Legislativo, para tirar os Estados Unidos da “pior crise econômica desde a Grande Depressão”, da “maior ameaça à democracia no país desde a Guerra Civil” e da “mais grave pandemia em mais de um século”, além de, como se não bastasse, recuperar a posição de liderança do país em uma variedade de questões muito caras à chamada comunidade internacional, em especial a defesa do meio ambiente e o combate às mudanças climáticas.

“Há cem dias”, disse Biden aos congressistas, “esta casa (os Estados Unidos) estava em chamas. Agora, depois de apenas cem dias, posso dizer à nação: os Estados Unidos estão em movimento novamente. Estão trabalhando novamente. Estão sonhando novamente. Liderando novamente. Nós estamos mostrando a cada um de nós e ao mundo que nos Estados Unidos não se desiste.”

Ciente de que nada poderá ser feito por sua administração sem que a tragédia da pandemia seja superada – até o momento, morreram mais de 570 mil americanos em decorrência da covid-19 –, Biden prometera aplicar 100 milhões de doses de vacina durante os cem primeiros dias de seu governo. Com pouco mais de um mês na Casa Branca, o presidente revisou a meta e a ampliou para 200 milhões de doses. Hoje, qualquer cidadão maior de 18 anos está apto a receber a vacina contra a covid-19 nos Estados Unidos. Durante o discurso no Congresso, Biden conclamou os norte-americanos à vacinação. “Saiam de casa, vão receber sua vacina, ela está disponível para todos.”

Temas muito sensíveis para os norte-americanos, como o racismo, a violência policial, o controle de acesso às armas e a desigualdade social, não foram deixados de lado por Biden em seu discurso, o que o aproximou da ala dita mais progressista do Partido Democrata, que, antes de sua indicação como candidato do partido à Presidência, temia que um eventual governo Biden seria “mais do mesmo da velha política de Washington”. Não será, como se pôde ver no dia 28 passado.

Para bancar parte de seu plano de recuperação econômica e concessão de benefícios sociais, Biden defendeu o aumento da carga tributária de empresas e de bilionários, o que já é chamado pela imprensa dos Estados Unidos como o “fim da era Reagan”, com o Estado sendo alçado à posição de destaque na indução da economia. A ver. Tudo dependerá de como responderão a sociedade e o Congresso. A sinalização, até aqui, foi positiva.

 

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