Vacilo ocidental ajuda Putin

Guerra ficou mais próxima na Ucrânia. Mas não é inevitável. Tudo dependerá da coesão dos aliados ocidentais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2022 | 03h05

O barril de pólvora está armado. Na última semana, mais e mais brigadas russas estacionaram nas fronteiras com a Ucrânia. O governo ucraniano sofreu ataques hackers e há evidências de uma operação engatilhada para permitir à Rússia alegar que suas tropas foram atacadas por Kiev. Os “tambores de guerra” começaram a soar, disse um diplomata americano. Os EUA e seus aliados deixaram claro que não deslocariam tropas para a Ucrânia. Mas foram bem menos claros quanto às sanções para a Rússia. Os esforços diplomáticos para desescalar as tensões falharam. As chances de uma guerra aumentaram. Mas ela não é inevitável.

Ainda hoje é difícil saber as reais intenções de Vladimir Putin. Suas demandas oficiais são impraticáveis: que a Otan não aceite novos membros e remova suas forças de países que compunham o antigo Pacto de Varsóvia. 

Se a agressão fosse iminente, seria de esperar uma campanha massiva de propaganda doméstica, como na invasão da Crimeia, em 2014. Mas isso não está acontecendo, e não há sinais de um suporte amplo na Rússia. Além disso, os riscos são altos: uma invasão teria altos custos econômicos. A Ucrânia, mesmo não sendo capaz de conter uma invasão, pode oferecer uma resistência longa, sangrenta e onerosa. A popularidade de Putin está em baixa, e eventuais reveses poderiam precipitá-la ainda mais.

A Otan falou em consequências “severas” e está enviando equipamentos militares à Ucrânia. Também ofereceu à Rússia tópicos de compromisso, como limites no emprego de mísseis ou exercícios militares. 

Os aliados discutem uma lista de gatilhos retaliatórios. Ao mesmo tempo, deram sinais preocupantes de desarmonia, que só favorecem a ameaça (ou o blefe) de Putin. O presidente francês, Emmanuel Macron, conclamou os europeus a realizar uma “proposta europeia” para a Rússia. Joe Biden confessou publicamente que uma “incursão menor” da Rússia provocaria desacordo entre os aliados sobre a resposta. A Rússia responde por quase metade das exportações de petróleo para a Europa, especialmente para a Alemanha. O chanceler Olaf Scholz disse vagamente que sanções envolvendo o petróleo ou o bloqueio de sistemas bancários – as principais ferramentas para retaliar economicamente Moscou – só deveriam ser discutidas após uma invasão.

Se é difícil antecipar as táticas de Putin, sua estratégia está sempre relacionada ao colapso da União Soviética e o anseio de restaurar a Rússia como uma superpotência global. Uma autocracia forte em casa cercada por uma periferia de Estados subservientes é chave nessa estratégia. Em seus cálculos, uma ocupação bem-sucedida talvez viesse a revitalizar o nacionalismo russo disseminando confusão entre seus adversários.

Mas, se perder a aposta, pode cimentar o senso de identidade e soberania ucraniano, galvanizar a Otan e deteriorar sua sustentação em casa. A humilhação, além de tudo, simbolizaria uma vitória geopolítica da democracia contra a autocracia. Mas, para isso, os aliados ocidentais precisarão mostrar muito mais unidade do que mostraram até agora.

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