Vacinação de crianças não é joguete

O presidente Bolsonaro joga com a saúde dos brasileiros. Como a pandemia, vai chegar o dia em que a impostura terá fim

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 03h05

Movido por algum interesse político-eleitoral ainda por ser revelado ao País, o ministro da Saúde, ninguém menos, descuida da saúde de milhões de crianças e faz pouco-caso das aflições de seus pais, ávidos por imunizar os menores contra a covid-19. “Os pais terão a resposta (sobre a vacinação infantil) no momento certo, sem açodamento”, disse Marcelo Queiroga no dia 20 de dezembro.

O tom desdenhoso do ministro em relação à gravidade da pandemia, cujo fim depende, fundamentalmente, do rápido avanço da vacinação, ecoava o de seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, que um dia antes questionara a razão de haver “tanta pressa” para vacinar as crianças brasileiras contra o coronavírus.

Tudo não passava de um pérfido jogo de cena, montado com a finalidade específica de atrasar a vacinação das crianças tanto quanto fosse possível, assim como o governo se empenhou em fazer – ao custo de muitas vidas, como revelou a CPI da Covid – em relação à vacinação dos adultos.

Desde que a Anvisa aprovou a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos, em meados de dezembro, já se sabia que a vacinação deste segmento populacional iria ocorrer. As doses do imunizante para o público infantil foram compradas. Prazos para entrega dos lotes foram pactuados com o laboratório. O governo, portanto, causou apreensão desnecessária na população em nome da narrativa eleitoreira de Bolsonaro – mostrar-se como defensor da “liberdade individual” para seus apoiadores mais radicais. Queiroga, ao que parece, abraçou cegamente a falácia, desonrando o seu diploma de médico.

Vejamos. No fim de dezembro, o Ministério da Saúde lançou um esdrúxulo questionário na internet para colher a “opinião” de cidadãos leigos sobre a vacinação infantil contra a covid-19, a despeito de a Anvisa – órgão técnico – ter atestado a segurança e a eficácia do imunizante da Pfizer para o público infantil – ademais já aplicado em crianças em diversos países. A pasta também marcou uma audiência pública para tratar do tema. Ora, ao mesmo tempo que simula uma discussão sobre o tema com a sociedade, Queiroga anunciou que até o final deste mês o País receberá 3,7 milhões de doses da vacina infantil desenvolvida pela Pfizer. E mais: a vacinação terá início tão logo o imunizante passe pelo trâmite de entrada no País.

Até o fim do primeiro trimestre, outros 20 milhões de doses deverão ser entregues, quantidade suficiente para aplicar a primeira dose em toda a população que tem entre 5 e 11 anos (20,5 milhões de pessoas, segundo o IBGE).

Não fosse o descaso do governo, a vacinação infantil poderia ter começado mais cedo. Assim, seria possível vislumbrar o início do período letivo com boa parte das crianças totalmente imunizadas com as duas doses, haja vista que o intervalo mínimo entre a primeira e a segunda dose é de 21 dias.

O presidente Bolsonaro joga com a saúde dos brasileiros. Assim como a pandemia, chegará o dia em que a impostura terá fim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.