Vacinação para o PIB

Ministério da Economia mostra em estudo o valor da vacinação para a retomada segura

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 03h00

Contrariando o negacionismo do presidente Bolsonaro, o Ministério da Economia aderiu abertamente aos padrões do mundo civilizado ao destacar, em seu Boletim Macrofiscal de maio, a importância da vacinação para o crescimento econômico. “A vacinação em massa, a consolidação fiscal e as reformas pró-mercado, todas em curso, pavimentarão o caminho para um crescimento sustentável que dê suporte a emprego, renda e maior nível de bem-estar da população brasileira”, afirmam os autores do relatório já no resumo apresentado na primeira página. Esse destaque, incomum na comunicação oficial do governo, tem sido rotineiro, desde o ano passado, em publicações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de outras entidades multilaterais.

Nenhum outro chefe de governo, pelo menos no mundo retratado pela imprensa internacional, resistiu tanto quanto o presidente Jair Bolsonaro, e por tão longo tempo, à aquisição de vacinas contra a covid-19. Além disso, nenhum outro dedicou tanto esforço a desacreditar a segurança e a eficácia dos imunizantes Nem seu guia político e espiritual, o americano Donald Trump, se engajou tão claramente em campanha contra qualquer imunizante. Ao contrário, o governo dos Estados Unidos apoiou a pesquisa e encomendou grandes volumes de vacinas apenas prometidas, naquela fase, pelos laboratórios envolvidos na pesquisa.

Só com muito atraso o governo brasileiro abrandou a campanha contra a vacina – sem a abandonar inteiramente – e mostrou algum interesse em comprar imunizantes. Em outubro do ano passado, quando a vacinação ainda era apenas uma esperança, a importância de uma possível imunização já era mencionada em documento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em janeiro, na versão atualizada desse documento, o Panorama Econômico Mundial, a palavra “vacina” apareceu logo na primeira frase. O otimismo dessa menção foi em seguida contrabalançado por uma advertência sobre o risco de novas ondas da covid-19 e de variantes novas do coronavírus.

Referências como essas têm sido comuns em comentários, estudos e análises produzidos fora dos ambientes mais dominados pelo espírito bolsonarista. Ao comentar os efeitos econômicos, em março, de novas medidas de isolamento seguidas em várias cidades, o pesquisador Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB-FGV, apontou a importância de acelerar a vacinação. Essa medida valerá, acrescentou, como “primeiro passo para que a economia possa crescer de forma mais sustentável a longo prazo”.

Coronavírus, covid-19, novas ondas da pandemia e vacinação rápida tornaram-se variáveis muito importantes para a análise econômica. São essenciais para o exame dos fatos imediatos e também para as projeções.

Bolsonaro e seus seguidores, no entanto, continuam tratando atividade econômica e cuidados com a saúde como preocupações contrastantes. Ao incentivar as aglomerações, o desprezo às precauções sanitárias e uma falsa normalização da vida, o presidente da República tem contribuído para mais contágios, mais internações, mais mortes e novos atrasos na retomada.

A observação desses fatos, conhecidos e lamentados internacionalmente, ilumina de forma especial o novo Boletim Macrofiscal do Ministério da Economia. Na edição anterior havia aparecido uma referência à relevância da vacinação para o crescimento seguro. Na edição atual, no entanto, uma página especial é dedicada ao tema, com o resumo de um estudo sobre a experiência de 30 países no período de novembro de 2020 a abril deste ano.

Esse estudo sugere, entre outros pontos, a seguinte conclusão: cada aumento de 10 pontos porcentuais nas doses aplicadas por 100 habitantes está associado à elevação de 0,13 ponto porcentual na projeção de crescimento econômico em 2021. Imunizar significa permitir mobilidade com risco menor e retorno mais seguro à produção e ao consumo. Esses fatos básicos podem parecer óbvios, mas foram rejeitados por muito tempo pelo presidente Jair Bolsonaro. Falta calcular quantos bilhões de dólares isso pode ter custado – e quantas vidas.

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