Vacinar para crescer

OCDE recomenda vacinação e prevenção para retomada global segura e sustentável

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 03h00

Apressar a vacinação em todo o mundo, medida “fundamental” para uma recuperação segura e sustentável, é a primeira recomendação da OCDE, a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, em seu novo relatório sobre as perspectivas globais. “A velocidade é crucial”, disse o secretário-geral da entidade, Angel Gurría. “Não há margem para autocomplacência”, acrescentou. Para isso será necessário, segundo ele, melhorar a cooperação e a coordenação internacionais. A projeção de crescimento mundial em 2021 foi elevada de 4,2%, número divulgado em dezembro, para 5,6%. O avanço calculado para o Brasil passou de 2,6% para 3,7%. É uma estimativa mais otimista que a do mercado brasileiro: 3,26%, de acordo com a pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central (BC) na segunda-feira passada.

Houve acentuada melhora das perspectivas globais nos últimos meses, segundo o relatório. A mudança é atribuída à distribuição gradual de vacinas, ao anúncio de novas medidas fiscais de apoio econômico e a sinais de maior sucesso nas ações contra o vírus. O estímulo fiscal de US$ 1,9 trilhão programado nos Estados Unidos dará um forte impulso adicional à economia americana, com crescimento agora estimado em 6,5%, e deverá também proporcionar benefícios a seus principais parceiros comerciais.

Restrições sanitárias são tratadas, no relatório, como políticas normais, ajustáveis de acordo com o avanço no controle da pandemia. Por isso, os países com maior sucesso no combate ao coronavírus poderão colher resultados econômicos mais rapidamente. Em nenhum momento se defende o afrouxamento de medidas preventivas para apressar a liberação das atividades econômicas. Os economistas da OCDE, assim como seus colegas de outras instituições multilaterais e dos governos mais bem-sucedidos, ficam longe das políticas defendidas pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus seguidores mais irresponsáveis.

A retomada global, depois do impacto causado em 2020 pela covid-19, foi mais rápida do que se previa. Até o meio deste ano a produção mundial deverá, segundo o relatório, voltar ao nível pré-pandemia. Pelas contas da OCDE, o Produto Mundial diminuiu 3,4% no ano passado. O ritmo de expansão previsto para 2021 (5,6%) deve recompor com alguma folga aquela perda. Esse resultado geral deverá ser garantido pelo desempenho de alguns países, como China, Índia, Estados Unidos, Coreia, Japão e Indonésia. Não será o caso dos países da zona do euro nem do Brasil.

A OCDE manteve, no caso brasileiro, uma estimativa de perda econômica de 4,4% em 2020. Mas o recuo foi de 4,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo com esse recuo, no entanto, será impossível o retorno, em 2021, ao patamar pré-crise, se o PIB brasileiro crescer de acordo com as projeções correntes. Com o resultado de 2020, o País saiu do grupo das dez maiores economias. Com a recuperação lenta, a defasagem será maior em relação aos países menos emperrados.

Para prolongar e fortalecer a recuperação global, será preciso, segundo a OCDE, manter políticas monetárias estimulantes, com juros baixos e crédito fácil, e prolongar, ou retomar, os incentivos fiscais, com maiores gastos públicos, linhas de auxílio emergencial e/ou redução da cobrança de tributos. As políticas dependerão, naturalmente, das condições de cada país – do espaço disponível em suas contas públicas, de seu endividamento, etc. Estímulos com foco mais definido são recomendados para maior eficiência das políticas.

Recuperação desigual entre setores, insegurança quanto à evolução da pandemia e surgimento de pressões inflacionárias são alguns dos problemas destacados no relatório. Todos esses problemas, pode-se acrescentar, são visíveis no Brasil. Sem entrar nesse detalhe, o relatório fica longe, também, de outras particularidades brasileiras, como a lentidão da política econômica, o desprezo do presidente à prevenção sanitária, a prioridade por ele atribuída a seu interesse eleitoral e seu desprezo à vida dos brasileiros.

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