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Valores sustentáveis

Com o engajamento das novas gerações, práticas sustentáveis estão se tornando irreversíveis

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h50

Há muitas razões pelas quais o ano de 2021 é considerado crucial para a sustentabilidade global, a começar pelo choque econômico e social da pandemia. A presidência de Joe Biden nos EUA também impulsionará uma agenda mais progressista, e há uma pressão difusa para que a conferência sobre o clima da ONU, a COP-26, avance em pautas que ficaram indefinidas nos últimos anos, como a regulação do mercado de carbono.

No Brasil há um complicador: a hostilidade do governo a causas ligadas à sustentabilidade, como a defesa do meio ambiente ou das minorias. Isso coloca ainda mais em pauta a atuação do setor privado. Felizmente, as condições globais são favoráveis, tanto no ecossistema do investimento como no do consumo. Essas condições ficaram evidentes no Summit ESG, promovido pelo Estado.

Uma pesquisa do UBS BB Global Banking com mais de 5 mil investidores mostrou que 70% gostariam que seus investimentos fossem alinhados a valores sustentáveis. Segundo o Barômetro de Confiança Edelman, 97% dos consumidores esperam marcas engajadas na solução de problemas sociais. No Brasil, as questões mais apontadas foram a pobreza (58%); o bem-estar (53%); segurança (52%); questões trabalhistas (52%); mudança climática (51%); e racismo estrutural (51%).

O movimento é irreversível, ainda mais quando se considera o engajamento das novas gerações. Mas há desafios a serem vencidos. Um deles é a regulação das “finanças verdes”. Para os especialistas ouvidos no Summit, o Brasil precisa avançar muito na criação de incentivos à cadeia sustentável. Em contrapartida, não se pode correr o risco de adotar padrões que sufoquem as empresas com exigências descabidas, prejudicando sua competitividade.

Outro problema é o chamado greenwashing – o emprego de uma retórica sustentável para efeitos de marketing que não corresponde às reais práticas das empresas. Não faltam boas métricas globais de sustentabilidade. Os especialistas, contudo, também apontam a carência no Brasil de bons sistemas de informações e critérios de adaptação à realidade local.

Mas, além destas externalidades, há desafios intrínsecos à teoria e à prática do ESG. Idealmente e a longo prazo, é fácil vislumbrar que os interesses ambientais e sociais convergem – não pode haver prosperidade em um planeta ambientalmente degradado. Mas, na prática e a curto prazo, pode haver conflitos e a necessidade de transacionar perdas e ganhos.

Assim como grandes programas de infraestrutura, por exemplo, podem gerar crescimento e empregos, mas com danos ambientais, exigências ambientais excessivas sobre o setor energético ou agrícola podem encarecer demais os preços básicos, onerando os mais pobres e agravando desigualdades.

Analogamente, do ponto de vista ideal, os interesses dos acionistas (“shareholders”) podem e devem ser harmonizados aos dos chamados “stakeholders” (as “partes interessadas”, como empregados, fornecedores, consumidores ou comunidades locais). Mas, de novo, a curto prazo as empresas podem ser obrigadas a fazer escolhas em prejuízo da sua lucratividade. Negar esses possíveis conflitos é contraproducente para a causa ESG. Reconhecê-los implica estabelecer estratégias de curto, médio e longo prazos.

Do ponto de vista dos investidores, por exemplo, nem sempre o boicote ou o desinvestimento é a melhor opção. Eles podem também usar seu voto em conselhos e assembleias para orientar o comportamento das empresas rumo a compromissos sustentáveis de longo prazo – mas assumindo que isso pode significar menos lucros no curto prazo. Do ponto de vista da sociedade civil e seus ativistas, é preciso calibrar as exigências feitas às empresas com a clareza de que as melhores ferramentas para garantir a defesa do meio ambiente e o progresso econômico são a ação democrática e o Estado de Direito, que permitem, entre outras coisas, estabelecer redes de proteção social, regras de transparência ou taxas de emissão de carbono. A responsabilidade das empresas e o dever do Estado não são excludentes, ao contrário. Mas é importante ter claro quais são as respectivas prioridades.

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