Varejo em tempos de aperto

Dinheiro curto limita o aumento do consumo, principal motor da atividade econômica

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 03h00

Principal motor da economia, o consumo continua oscilante, por causa da inflação alta, do desemprego e da insegurança das famílias. Em agosto o comércio varejista vendeu 3,1% menos que no mês anterior. O volume de vendas diminuiu em quatro dos oito primeiros meses do ano. As três quedas anteriores ocorreram em janeiro, março e junho. O fraco desempenho da indústria reflete principalmente as dificuldades do consumidor brasileiro, seu comprador mais importante. Outros fatores, como a escassez de matérias-primas e componentes, também têm afetado a atividade industrial, mas a explicação básica está mesmo no aperto do orçamento familiar.

As vendas caíram, em agosto, na maior parte das atividades comerciais. O resultado foi negativo em seis dos oito ramos do varejo do dia a dia. A erosão da renda, provocada basicamente pela piora das condições de trabalho e agravada pela inflação, afetou o conjunto dos negócios, incluído o segmento super e hipermercados, com recuo mensal de 1%. O efeito da alta de preços é especialmente visível no varejo de combustíveis e lubrificantes, com variação negativa de 2,4%.

A maior perda, uma redução de 16%, ocorreu no ramo classificado, um tanto misteriosamente, como “outros artigos de uso pessoal e doméstico”. A explicação é simples. Esse conjunto, onde se incluem as lojas de departamentos, conseguiu reagir depois do grande tombo do ano passado, ampliou seus negócios por meio da internet. Suas vendas tiveram crescimento mensal de 19,1% em julho e superaram por 36,8% o volume de um ano antes. Em agosto houve uma acomodação e o resultado se tornou 1,7% inferior ao obtido nesse mês em 2020.

Com o acréscimo das lojas de veículos, motos e componentes e de material de construção, chega-se ao varejo ampliado, um conjunto formado por dez classes de comércio. As vendas de veículos, motos e componentes foram 0,7% maiores que as de julho e 16,8% superiores às de um ano antes.

A produção da indústria automobilística foi devastada nos primeiros meses da pandemia. Principalmente por isso, as diferenças são muito grandes, quando se comparam os números deste ano com os de 2020. As montadoras foram muito afetadas pela escassez de insumos, incluídos os semicondutores, e isso tem limitado a oferta de carros novos. O aumento das vendas finais tem dependido amplamente do mercado de veículos usados, como foi mostrado em reportagem recente do Estado.

Quanto às vendas de material de construção, diminuíram 1,3% no mês e 7,1% na comparação interanual, mas ainda cresceram 15,9% em 12 meses. Em conjunto, os dez setores componentes do varejo ampliado venderam em agosto 2,5% menos que em julho, com crescimento nulo em relação ao mês correspondente do ano passado.

Pressionadas pelas condições de trabalho e pela alta de preços, com inflação de 9,68% nos 12 meses até agosto, as famílias contiveram os gastos procurando produtos mais baratos e renunciando a certas compras. Suas dificuldades foram agravadas pelo encarecimento de itens essenciais, como alimentos, gás de cozinha e eletricidade. De julho para agosto a receita nominal de hiper e supermercados variou apenas 0,3% e a de postos de combustíveis diminuiu 0,7%. Houve aumento de preços, mas o faturamento de muitas empresas foi contido pela retração dos consumidores.

A inflação continuará acelerada e nada permite prever uma rápida e acentuada melhora das condições de emprego. Para frear a alta de preços, o Banco Central deve continuar elevando os juros e dificultando o crédito. É muito difícil, diante dessas perspectivas, antever uma recuperação mais firme do consumo. Sem a participação do consumidor, a indústria continuará condenada a uma recuperação insegura e oscilante. O mercado externo poderá proporcionar boas oportunidades de vendas, mas a exportação ainda tem, para a maior parte das indústrias, uma importância muito limitada como fonte de receita. A mudança desse quadro só será possível com uma inovação estratégica nas empresas e com um sério envolvimento do setor público.

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