Vazio de liderança

Diagnóstico do 'New England Journal of Medicine' sobre os EUA na pandemia serve com exatidão para o Brasil

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 03h00

Por que os EUA administraram a pandemia tão mal? A maior economia do mundo, com uma poderosa rede de comunicação e tecnologia, pesquisa e estrutura biomédicas de ponta, é ainda assim líder em infecções, com taxas de mortalidade superiores às de muitos países de baixa renda. Se a crise foi um teste de liderança, os líderes da nação que tantas vezes liderou o mundo “fracassaram”, disse em editorial o New England Journal of Medicine (NEJM). “Eles assumiram uma crise e a transformaram numa tragédia.”

O próprio editorial é sintomático. Nos 208 anos da mais prestigiosa publicação de medicina do mundo, este foi o 4.º editorial assinado por todos os editores (34), desfilando pela primeira vez críticas ao governo em pleno período eleitoral.

Mesmo com uma infraestrutura biomédica e industrial incomparável, os EUA foram incapazes de prover adequadamente equipamentos de proteção para os profissionais de saúde e a população e promover testes em massa, como fizeram Coreia do Sul ou Cingapura. A China, após a hesitação inicial ante um patógeno inédito, adotou regras estritas de quarentena, reprimindo o surto na raiz: enquanto sua taxa de mortalidade é de 3 pessoas para cada milhão, nos EUA são 500. O desempenho das democracias em geral também superou o dos EUA.

Particularmente perturbador para o Brasil é o fato de que, aparte as referências a recursos tecnológicos e financeiros, o editorial – significativamente intitulado Morrendo  em um Vácuo de Liderança – poderia ser transliterado, permutando “EUA” por “Brasil” sem nenhum prejuízo para a exatidão do diagnóstico. Até porque parte substancial das intervenções eficazes depende pouco de tecnologia ou dinheiro.

Lá, como aqui, as medidas de isolamento foram frequentemente tardias e inconsistentes, mal fiscalizadas e relaxadas prematuramente. Boa parte das pessoas não usa máscaras, em grande medida porque muitas lideranças alardeiam que elas são ferramentas de controle político antes que meios eficazes de reduzir o contágio.

“O governo federal abandonou vastamente o controle da doença aos Estados. Os governadores variaram em suas respostas, não tanto em razão de seus partidos, mas de sua competência. Mas seja qual for sua competência, os governadores não têm as ferramentas que Washington controla. Ao invés de utilizar essas ferramentas, o governo federal as minou”, diz o NEJM. A propósito de ferramentas desperdiçadas, o ministro Eduardo Pazuello confessou candidamente que até ser recrutado para tapar um buraco no Ministério da Saúde “não sabia nem o que era o Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Lá, como aqui, instituições públicas – como o National Institute of Health ou a Food and Drug Administration – foram excluídas de decisões cruciais e “vergonhosamente politizadas”, respondendo antes às pressões do governo que a evidências científicas. “Nossos líderes destruíram a confiança na ciência e no governo, causando danos que perdurarão. Ao invés de confiar em peritos, a administração se voltou para ‘líderes de opinião’ desinformados e charlatães que obscurecem a verdade e facilitam a promulgação de mentiras flagrantes.”

A chocante similaridade com o Brasil não está só no diagnóstico, mas no prognóstico. “Qualquer um que desperdiçasse irresponsavelmente vidas e dinheiro dessa forma deveria sofrer consequências legais. Nossos líderes reclamaram ampla imunidade. Mas as eleições nos dão poder para dar o veredicto.” Lá, como aqui, “na resposta à maior crise de saúde pública de nosso tempo, nossos líderes políticos comprovaram que são perigosamente incompetentes”. Lá, como aqui, “não deveríamos incentivá-los e possibilitar outros milhares de mortes permitindo que eles mantenham seus empregos”.

Os americanos têm a chance de iniciar uma renovação que o Brasil só poderá fazer daqui a dois anos. Mas as eleições municipais são já uma oportunidade de mostrar que a lição da pandemia foi aprendida. Se não for, o eleitorado não só estará desonrando a memória de milhares de mortos, mas preparando a ceifa que levará outros tantos.

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