Vem aí o 5G, mas falta o G de governo

O potencial de modernização será em grande parte desperdiçado se continuar faltando uma política para conduzir o País a uma nova etapa de crescimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 03h00

Com o leilão do 5G, o Brasil se prepara para incorporar mais uma grande mudança tecnológica, porta de ingresso para novas condições de produtividade, competitividade, crescimento econômico e bem-estar. O sucesso do leilão, com ágio de quase 250% sobre os valores mínimos das faixas ofertadas, no primeiro dia, foi a melhor notícia econômica da semana – de fato, uma das poucas novidades positivas. No mesmo dia foi divulgado o recuo da produção industrial em setembro, a quarta queda mensal consecutiva e a sétima em nove meses. A persistente fraqueza da indústria denuncia, juntamente com a inflação elevada, o aumento da pobreza e a desordem fiscal, o fracasso de uma Presidência sem gestão, sem projeto de trabalho e sem rumo para o País.

O enorme potencial da tecnologia 5G contrasta, no Brasil de hoje, com a carência do G de governo, indispensável às sociedades ditas civilizadas. Essa carência ficou clara já em 2019. Facilitar o acesso às armas foi o primeiro grande esforço do novo presidente. A única inovação importante, a reforma da Previdência, havia amadurecido no mandato anterior. A economia perdeu impulso, depois de dois anos de recuperação da crise de 2015-2016. Depois, afundou em 2020, com a pandemia, reage moderadamente em 2021 e as projeções mais confiáveis apontam um desempenho miserável nos próximos anos.

A agropecuária foi o primeiro setor mencionado pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria, ao comentar, em entrevista ao Estado, as possibilidades de crescimento com base na nova tecnologia. “O agronegócio”, disse o ministro, “a gente estima que cresça pelo menos 10% com o 5G.” Se isso ocorrer, acrescentou, só esse desempenho deverá garantir uma expansão de 2,6% para o Produto Interno Bruto (PIB).

Pode-se discutir se esses números são corretos, mas estão fora de dúvida alguns pontos muito importantes. O agronegócio tem-se mantido, há muitos anos, como o setor mais dinâmico, mais competitivo, mais inovador da economia brasileira e mais vigoroso em fases de crise internacional. Tem sido a principal fonte de receita comercial externa, seguido pela indústria extrativa mineral. Além disso, experiências com 5G – no uso de drones, por exemplo – têm sido realizadas na agropecuária. Esse interesse pioneiro foi mostrado em reportagens de imprensa. É fácil perceber por que foi o primeiro setor mencionado pelo ministro nessa entrevista.

Para a indústria, especialmente para a manufatureira, a nova tecnologia poderá ser um caminho seguro de recuperação, depois de longo declínio. O 5G poderá proporcionar, entre outros benefícios, melhores condições de competição internacional. Mas o investimento depende ainda, e poderá continuar dependendo por algum tempo, das perspectivas do mercado interno. Essas perspectivas continuam pouco estimulantes.

Além disso, entraves internos à competitividade internacional, incluídos no chamado custo Brasil, continuam intactos. As propostas federais de reforma tributária são insuficientes, além de muito mal concebidas, e a mera redução de direitos trabalhistas, grande solução defendida pelo ministro da Economia, é uma resposta indigente, quando confrontada com os fatores de competitividade de outros grandes emergentes.

O potencial de modernização, de eficiência e de competitividade inscrito no 5G será em grande parte desperdiçado se continuar faltando uma política para conduzir o País a uma nova etapa de crescimento. A confusão sobre o teto de gastos e sobre a origem de recursos para ajuda aos pobres alimenta a insegurança quanto às contas públicas, favorece a alta do dólar, produz inflação e conduz a novos aumentos de juros. Tudo isso é incompatível com mais investimentos produtivos. Insuficientes no setor privado, esses investimentos já desapareceram, ou quase, do setor público. Na área federal, os gastos mais previsíveis, além dos obrigatórios, são os destinados a saciar a fisiológica base de apoio do presidente Jair Bolsonaro. Nenhuma tecnologia da informação compensa, pelo menos até agora, o desgoverno.

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