Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Verdade alternativa

CPI está sendo explorada por Jair Bolsonaro e seus sequazes para propagar mentiras e distorções explícitas como se fossem versões legítimas dos fatos. Esse ardil não pode prosperar

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 03h00

Após a quarta semana de depoimentos à CPI da Pandemia, já está claro que a comissão está sendo explorada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus sequazes para propagar mentiras e distorções explícitas como se fossem versões legítimas dos fatos. Essa estratégia – que é usada pelos bolsonaristas desde que o presidente tomou posse e foi largamente responsável pela eleição de Bolsonaro – tem o objetivo óbvio de causar confusão, mas vai além: presta-se a reduzir a realidade dos fatos a uma questão de opinião.

Ouvida na terça-feira passada, Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde, seguiu rigorosamente o protocolo bolsonarista. Para defender o uso de cloroquina para doentes de covid-19, amplamente rejeitado por inúmeros estudos científicos, a secretária citou pesquisas já desmoralizadas por especialistas.

Na ofensiva bolsonarista contra a verdade, contudo, pouco importa a qualidade das pesquisas mencionadas pela secretária Mayra. O efeito esperado é obtido quando essas pesquisas são mencionadas com ar de autoridade científica. O ônus de provar que tais estudos não valem nada é de quem está de fato buscando a verdade. Mesmo que a farsa seja exposta, o estrago no debate público já está feito, pois a impostura, uma vez criada, ganha vida própria e passa a ser repetida como se fosse verdade, especialmente nas redes sociais.

Ademais, e isso talvez seja o mais importante, a artimanha bolsonarista busca conferir à mentira a característica de opinião fundamentada, tão válida quanto qualquer outra. Aqueles que denunciam a fraude – sobretudo cientistas e jornalistas – são imediatamente apontados como opositores do presidente Bolsonaro e, por isso, caracterizados como inimigos do País.

Na CPI da Pandemia, os senadores da “tropa de choque” do governo fazem sua parte nesse embuste. De maneira constrangedora, apresentam dados distorcidos ou simplesmente falsos, escoram-se em trabalhos pseudocientíficos e tratam como autênticas as teorias que circulam no esgoto das redes sociais bolsonaristas.

Esses parlamentares não se constrangeram nem mesmo diante das muitas evidências expostas pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, em sua oitiva. As informações trazidas por Dimas Covas, todas comprovadas por documentos, ajudaram a reconstituir em detalhes a imensa irresponsabilidade do governo Bolsonaro ao menosprezar a vacina contra a covid-19 produzida pelo Butantan. A conclusão do diretor do instituto foi cristalina: o Brasil poderia ter hoje 100 milhões de doses da vacina do Butantan, em vez dos atuais 47,2 milhões, se o governo Bolsonaro tivesse se interessado pelo imunizante quando este foi oferecido, em outubro de 2020.

Como todos sabem, foi em outubro que o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, numa reunião com governadores, anunciou a aquisição da vacina do Butantan. Um compromisso chegou a ser formalizado. Mas, logo depois, Bolsonaro desautorizou publicamente seu ministro, dizendo que já havia mandado suspender o acordo: “Já mandei cancelar, o presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade”. Completou dizendo que os brasileiros não seriam “cobaias” da “vacina chinesa do Doria”, em referência ao governador de São Paulo, João Doria, que o presidente trata como inimigo visceral.

Em seu depoimento à CPI, o ex-ministro Pazuello, fiel ao negacionismo bolsonarista, disse que jamais recebeu ordem para cancelar nada e atribuiu as declarações do presidente a “coisa de internet”. No entanto, como demonstrou o diretor do Butantan, “é notório que houve uma inflexão” a partir daquele momento, e o contrato para as vacinas só foi assinado em fevereiro.

Cada evidência demonstrada por Dimas Covas era contraposta pelos senadores governistas com informações fictícias ou deturpadas. O objetivo, claro, não era apenas desmentir o cientista, mas oferecer ao País uma “verdade alternativa”, aquela ditada pelo bolsonarismo – e nada melhor do que uma CPI com imensa atenção nacional para divulgá-la. Cabe a quem preza a verdade dos fatos impedir que esse ardil prospere.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.