Violência contra idosos

População acima de 60 anos, muitas vezes tratada como estorvo, sofre mais agressões dentro de casa na pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2022 | 03h00

Um dos tantos efeitos perversos da pandemia de covid-19 parece ter sido o aumento da violência doméstica. Depois que a população passou a ficar mais tempo em casa, cresceu o número de denúncias de agressão e de violações de direitos no País. Os principais alvos são as mulheres, juntamente com crianças e adolescentes. Em terceiro lugar nesse indecoroso balanço, como mostrou o Estadão recentemente, aparecem os idosos − grupo que representa hoje quase um quinto dos habitantes do País e, com o envelhecimento em curso, deverá responder por 29% do total em 2050.

As estatísticas impressionam: o Disque 100, serviço de atendimento telefônico mantido pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH), recebeu 35.017 denúncias de violações de direitos contra idosos entre janeiro e o último dia 3 de junho. Praticamente o mesmo número registrado nesse período no ano passado: 35.100. E quase o dobro das denúncias feitas em 2019, antes da pandemia, também nesse mesmo período (17.566). Logo, parece razoável supor que o maior número de denúncias seja consequência da permanência das famílias em casa por mais tempo, por causa da pandemia.

Entrevistado pelo Estadão, o ouvidor nacional de Direitos Humanos, Nabih Chraim, chamou a atenção para o fato de que 87% das denúncias neste ano dizem respeito a violações de direitos que teriam ocorrido na residência das vítimas. Maus-tratos e agressões estão entre as mais frequentes. A lista, no entanto, é longa e inclui violência psicológica, abandono, xingamentos e humilhações − o que pode levar a quadros de depressão e distúrbios nervosos. Há também o abuso econômico, quando companheiros, cuidadores ou parentes controlam a vida financeira do idoso.

Outro dado que fala alto sobre os riscos a que está sujeita a população idosa diz respeito ao perfil dos supostos agressores: em quase metade das denúncias, os algozes são os próprios filhos, seguidos por vizinhos (6%) e netos (5%). Ou seja, o descaso e a violência podem ter origem em quem deveria cuidar da vítima.

Por óbvio, a violação de direitos deve ser combatida e punida. Ao receber e encaminhar as denúncias para averiguação pelos órgãos competentes, o Disque 100 cumpre papel fundamental. Dar visibilidade a um tipo de violência que, do contrário, poderia receber menos atenção da sociedade também ajuda muito. Como se sabe, a subnotificação é comum no País, e isso vale especialmente para casos de violência doméstica. 

Em relação aos idosos, é preciso levar em conta o desamparo de boa parte da população nessa etapa da vida. À medida que o tempo passa e que o idoso deixa de ser provedor para se tornar alguém que demanda cuidados, quem assume a responsabilidade pelo seu bem-estar? Em muitas famílias, é aí que o problema começa. Não raro, setores da sociedade também encaram os mais velhos como um peso do ponto de vista da Previdência e do sistema de saúde. Nada mais equivocado. Garantir a dignidade e os direitos da população idosa é um dever das novas gerações, que um dia também deverão tirar proveito dessa mesma lógica.

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