Violência intolerável

Não se viu um só gesto ou palavra do presidente da República para repudiar a violência contra o Porta dos Fundos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 03h00

O atentado contra a sede da produtora Porta dos Fundos, cometido na véspera do Natal, não foi o primeiro crime de uma espiral de intolerância que, tristemente, tem marcado a vida nacional nos últimos anos. Espera-se que tenha sido o último. Atos dessa natureza têm de receber dura resposta do Estado a fim de servirem de exemplo a outros tresloucados que cogitem usar de violência para fazer valer seus valores e crenças. Isso é intolerável em sociedades democráticas.

Neste sentido, foi exemplar a presteza da Polícia Civil do Rio de Janeiro em identificar um dos principais suspeitos de ter planejado e executado o ataque com coquetéis Molotov contra a sede do grupo humorístico, em Botafogo, zona sul da capital fluminense. Recorrendo à tecnologia, peritos conseguiram reconstituir o rosto e a voz do suspeito, que gravou vídeos durante e após o atentado. Comparando os resultados obtidos com as câmeras de segurança na região do ataque e com a base de dados do Instituto de Identificação Félix Pacheco, a Polícia Civil chegou ao nome de Eduardo Fauzi Richard Cerquise, que está foragido.

Lamentavelmente, a mesma presteza não teve o presidente Jair Bolsonaro em condenar o atentado. Até o momento, não se viu um só gesto ou palavra do presidente da República para repudiar a violência praticada contra o grupo Porta dos Fundos, que, felizmente, não provocou mais do que prejuízos materiais. Não apenas como chefe de Estado e de governo, mas como um genuíno líder a inspirar seus concidadãos, Bolsonaro teria feito muito bem ao País se usasse o triste episódio como uma oportunidade para conclamar a sociedade a um exercício de tolerância. Mas Jair Bolsonaro não é este tipo de líder, ao contrário, é a um só tempo vítima e um dos dínamos dessa perniciosa época de certezas imunes aos fatos e ao poder do diálogo.

Eduardo Fauzi é um velho conhecido da polícia do Rio de Janeiro. Ele já foi preso por agredir em 2013 o ex-secretário de Ordem Pública do Rio Alex Costa, por conta de uma operação da Prefeitura para o fechamento de estacionamentos irregulares no centro da cidade. Fauzi administrava um desses estabelecimentos. No mesmo ano, ele também foi preso por ter agido com violência durante as manifestações de junho. Como se vê, trata-se de uma figura com um jeito bem peculiar de externar as suas posições. Talvez mais um bom tempo de reflexão diante das paredes de uma cela o leve à revisão de seus métodos.

Hoje, Eduardo Fauzi se diz “integralista”. Até o dia do ataque contra a sede do grupo Porta dos Fundos ele presidia o diretório da Frente Integralista Brasileira (FIB) no Rio de Janeiro. A entidade repudiou o ato. Antes, militou em organizações de esquerda e já demonstrou simpatia por grupos terroristas como a Al-Qaeda. Atualmente, é filiado ao PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro concorreu à Presidência da República em 2018.

Eduardo Fauzi pode se autodeclarar “integralista”, “comunista”, “direitista” ou qualquer outro “ista” que lhe aprouver segundo as conveniências de momento. Fato é que se trata de uma pessoa perturbada, não necessariamente por conta de alguma disfunção de ordem médica ou psicológica, tampouco por seu vaivém ideológico, mas por uma manifesta incompreensão dos limites impostos pela lei – e pela civilidade – ao exercício da cidadania. Ao optar pelo vale-tudo na defesa de seus pontos de vista – no caso atual, uma crítica à forma como o grupo Porta dos Fundos retratou Jesus Cristo em um especial de fim de ano para a Netflix, segundo vídeo que divulgou após a fuga –, não há outra alternativa a não ser levá-lo a responder por seus atos perante a Justiça. O País só tem a ganhar com o efeito dissuasório produzido pelo célere desfecho do caso.

Atos de violência como o atentado contra o grupo Porta dos Fundos, felizmente, ainda são exceções no País. Para que não se tornem rotineiros, é fundamental a ação da polícia e da Justiça na contenção dos criminosos. Mas também cabe a cada um dos cidadãos refletir sobre sua participação no debate público. Tolerância não é mera resolução de ano novo, é exercício diário.

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