Vitória da cidadania e do bom senso

Liberação das máscaras só foi possível porque a maioria da população aderiu às medidas sanitárias, a despeito da sabotagem de Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 03h00

Premidos pela emergência da pandemia de covid-19, os brasileiros tiveram de se adaptar muito rapidamente a uma nova forma de vida em sociedade. Além de ter de repensar os cuidados pessoais diante da ameaça de um vírus que causou a morte de mais de 650 mil pessoas no País, cada um precisou dedicar especial atenção à saúde de seus concidadãos. Manter distância uns dos outros, atitude desafeita à própria natureza gregária do nosso povo, que impôs tantas restrições, foi uma das muitas medidas necessárias para frear a disseminação da doença que exigiram disciplina e espírito público. Mas nenhuma dessas medidas representou tão bem esse zelo a um só tempo individual e coletivo como a adesão da maioria dos cidadãos ao uso das máscaras. Nenhum objeto simbolizou essa tragédia – e, por outro lado, a responsabilidade individual e a união de todos que o momento grave exigia – como as máscaras.

Dois anos depois, graças a esse esforço coletivo, e em particular à confiança dos brasileiros nas vacinas, o uso da proteção facial começa a deixar de ser obrigatório em algumas cidades do País. Trata-se de uma sinalização inequívoca de que, se ainda não é possível declarar o fim da pandemia no País, se atingiu um patamar em que sua fase mais mortal, desde que mantida a prudência, pode ter ficado para trás.

O Rio de Janeiro foi a primeira capital a desobrigar o uso das máscaras tanto em ambientes abertos como fechados. Os Estados de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Maranhão e o Distrito Federal também já tornaram facultativo o uso da proteção facial ao ar livre.

Ontem, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou que em todo o Estado o uso de máscaras deixou de ser obrigatório em áreas abertas de shoppings, praias, parques e calçadas. A proteção facial também deixou de ser obrigatória para alunos, professores e funcionários nas áreas externas das escolas. Não há data para a liberação em ambientes fechados, como no Rio, mas, tendo em vista a queda consistente dos casos e mortes decorrentes de covid-19 e o avanço da vacinação infantil em São Paulo, não deve tardar para que os paulistas que assim desejarem também deixem as máscaras de lado em quaisquer ambientes nos quais se sintam seguros.

É importante frisar que a decisão de desobrigar o uso de máscaras está embasada em parecer do comitê científico que assessora o governo de São Paulo. Vale dizer, os cidadãos que se sentirem à vontade podem deixar de usá-las nos espaços apropriados sabendo que a liberação decorre de análises com base em dados científicos. Por outro lado, é altamente recomendável que indivíduos que tenham o sistema imunológico comprometido não deixem de usar a proteção facial em todas as situações. Por razões óbvias, os indivíduos que ainda não completaram o ciclo vacinal e aqueles que apresentam sintomas gripais também devem continuar usando máscara. E também se deve respeitar, é evidente, a vontade de todos os que, independentemente de sua condição, queiram continuar se protegendo.

A liberação do uso das máscaras é o passo mais significativo na direção de uma certa normalidade. Isso só foi possível porque, ao fim e ao cabo, prevaleceu a adesão da esmagadora maioria da população às medidas preconizadas pelas autoridades sanitárias, em especial à vacinação, a despeito da sórdida e incessante campanha do presidente Jair Bolsonaro contra toda e qualquer ação em prol da saúde pública. Por todos os seus desatinos na condução do Brasil durante esse período trevoso, Bolsonaro tem lugar garantido na história como a personificação de um segundo mal que se abateu sobre os brasileiros, além do coronavírus. Quando não foi omisso, o presidente se notabilizou por ações deliberadamente contrárias ao interesse público.

Malgrado a ignorância do presidente e de seus devotos mais fanáticos, prevaleceram o instinto de autoproteção e o espírito público da maioria de seus governados, seja agindo com prudência nos limites de sua responsabilidade, seja pressionando administradores públicos a agirem corretamente nessa crise. Só por isso, e nada mais, hoje é possível vislumbrar dias melhores no futuro próximo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.