Xi reescreve o passado

Edulcorar as atrocidades de Mao é instrumental para que o líder chinês consolide sua própria ditadura

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 03h00

Por quatro dias, a elite política e militar chinesa se reuniu no conclave anual do Comitê Central do Partido Comunista. Na pauta, uma resolução sobre os cem anos do partido, uma simbologia rara e importante, só empregada duas vezes, em 1945, por Mao Tsé-tung, que consolidaria três décadas de poder, e em 1981, por Deng Xiaoping, que reinou por 15 anos. Agora, ela pavimenta um terceiro – e possivelmente vitalício – mandato de Xi Jinping.

A resolução de Mao foi projetada para justificar o expurgo de seus inimigos e coroá-lo como líder supremo. Buscando reformas no partido e a abertura da economia, Deng fez críticas calculadas ao maoismo.

Xi rejeitou muitas reformas de Deng, incluindo uma separação mais acentuada entre o partido e o governo e a rotatividade no poder. Mas em sua história oficial ele é herdeiro dos dois colossos, em uma continuidade sem máculas ou contradições. Segundo Xi, nem Mao nem Deng devem ser usados para “negar” um ao outro.

Xi tem horror ao caos milenarista da Revolução Cultural. Mas tem mais horror a qualquer crítica ao partido. Para ele, um dos motivos do colapso da URSS foi o desrespeito à memória de Stalin. Em sua campanha contra o “niilismo histórico”, a ridicularização dos heróis nacionais passou a ser um crime punível com três anos de prisão. Edulcorar as atrocidades de Mao e revalorizar seu culto à personalidade é instrumental para que Xi consolide sua própria ditadura, a mais implacável desde Mao.

A história oficial agora é que Mao conquistou a unidade e a independência da China, Deng a enriqueceu e Xi a fez poderosa. “O grande rejuvenescimento da nação entrou em seu processo histórico irreversível”, diz a resolução. “Somente o socialismo pode salvar e desenvolver a China” – e somente Xi, entenda-se, pode consumar esse “destino manifesto” chinês. A mensagem imperará no Congresso do Partido de 2022, que conferirá a Xi um novo mandato.

A mídia estatal foi ainda mais efusiva do que o comum na celebração do “grande líder”. É um sinal de que 2022 servirá para esmagar qualquer laivo de resistência. Em Hong Kong, as referências ao Massacre da Paz Celestial, data histórica para as forças democráticas, estão sendo apagadas. A ofensiva regulatória sobre os empresários inimigos da “prosperidade comum” deve se intensificar.

A resolução não cita Taiwan ou o Ocidente, mas estão em letras garrafais nas entrelinhas. A anexação de Taiwan inquietou todos os líderes desde Mao e é uma questão de honra para Xi. Nos fóruns internacionais, há alguns anos os diplomatas chineses abandonaram a postura defensiva de acomodação de seu capitalismo de Estado e passaram a propagandeá-lo como um modelo triunfal contra um Ocidente individualista, disfuncional e caótico.

Como constatou o jornalista David Rennie, “o humor em Pequim é uma estranha mistura de confiança, húbris e paranoia”. Isso só fortalece Xi Jinping. Enquanto ele centraliza o poder no presente e o expande ao passado e ao futuro, as perspectivas para as democracias liberais não são boas. 

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